segunda-feira, 11 de abril de 2011

Massacre em escola do Rio de Janeiro mostra a debilidade da sociedade em compreender seus próprios eventos

Imagem retirada de: http://www.dignow.org/

No dia 07 de abril de 2011, próximo das oito horas e trinta da manhã, com a suposta intenção de ministrar uma palestra, um ex-aluno adentrou na Escola Tasso da Silveira (bairro Realengo na zona oeste do Rio de Janeiro). Mas não é isso que causa aviltamento, e sim o fato de que  a palestra não passava de um subterfúgio para a realização de um massacre que provocou a morte de 11 crianças, com idade entre 12 e 14 anos, e pôs em risco de morte outras 18. O assassino foi identificado como Wellington Menezes e Oliveira, de 23 anos, que se suicidou logo após ter seus planos interrompidos pela polícia. Wellington deixou um bilhete no local, no seu conteúdo notava-se o total delírio e desespero.  Há suspeitas de que o atirador sofra de distúrbios mentais. Quanto às autoridades, essas estão se reunindo na localidade para obter maiores informações e prestar esclarecimentos para a comunidade.
Todavia, o trágico acontecimento ocorrido nessa manha de quinta-feira não causa surpresa, mas nos faz refletir sobre um caso semelhante ocorrido em 16 de abril de 2007, no estado americano da Virgínia, quando um jovem estudante universitário Seung-Hui Cho, de 23 anos, matou 32 pessoas e feriu 15, vindo a suicidar-se momentos depois.  Após realizar o primeiro ataque Seung-Hui Cho deixou um bilhete que, conforme relatado pela imprensa americana,criticava os "garotos ricos", a "degeneração" e os "charlatões mentirosos" da universidade. A chacina ocorrida na Virginia Tech University foi descrita pelos jornais como “a maior chacina ocorrida em uma universidade americana”.
Leitores atentos, e também os não tão atentos, podem observar a repetição de algumas palavras, tais como: jovem, estudante, morte, bilhete e suicídio. Seria muito simples definir tal acontecimento como anormal ou patológico, pois alguns fatos recentemente ocorridos no mundo podem colocar a chacina de Realengo como uma onda que foge ao controle da sociedade, mas que em momento algum pode ser chamada de anormal.
O que se coloca para refletir no presente fato não trata das vitimas ou do assassino e sim do poder autofágico que a presente sociedade possui. Autofagia representada pelo vácuo que tomou conta do que antes era denominado de “ser humano”.  Vácuo que não é somente representado pela indiferença do assassino de Realengo, mas sim da sociedade como um todo. A desumanidade de tal ato pode ser visto como uma reação violenta ocasionada por tantas outras desumanidades difusas provocadas ao autor do crime. Esse estranho paradoxo em que autor e vítima se confundem em um só sujeito mostra a fragilidade em que o atual sistema social se encontra.
Dessa forma, falar de desemprego, marginalização, discriminação das minorias, dentre outros meios nos quais a indiferença social toma a forma de desumanidade é apontar para o caráter hipócrita em que a sociedade comunica os seus próprios desastres. Hipocrisia que consiste em atribuir como única causa do crime à desumanidade ou psicopatia do assassino, quando, bem na verdade, há uma multiplicidade de causas presentes na sociedade e que estão muito além da brutalidade do assassino de Realengo. Mas essas múltiplas causassão categoricamente encobertas por meio do subterfúgio da anormalidade, da demência, da psicopatia do criminoso que já não pode mais ser ouvido. Desse mesmo modo o desemprego, a marginalidade e discriminação das minorias são vistos pela sociedade por meio de manifestações anormais, dementes ou psicóticas dos excluídos. Dar respostas simples como estas aos nascentes problemas sociais é virar as costas para as soluções criativas que poderão surgir. A anormalidade é um dogma a ser superado, e como tal não aceita respostas simples como a desumanidade, psicopatia ou a demência dos autores- vitimas da sociedade.

Opinião de Murilo Grifante
Bolsista BIC/Fapergs

Um comentário:

  1. Bela matéria Murilo, realmente temos de refletir, pois este indivíduo foi produzido por nossa sociedade. As relações, principalmente nos grandes centros, onde o individualismo é maior, tem se tornado superficiais, o que redunda no isolamento e na exclusão daqueles que são "invisiveis". Parabéns.

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